Entre a crise pandêmica e o pré-keynesianismo institucionalizado: a agonia social e econômica brasileira

Miguel Bruno

Resumo


Este artigo discute os impactos da atual crise econômico-sanitária em conjunção com os efeitos contracionistas de uma gestão pré-keynesiana das finanças públicas federais e das políticas econômicas e sociais do Estado brasileiro, pautadas pela austeridade fiscal. Procura mostrar seus equívocos teóricos e suas consequências deletérias não somente no combate à pandemia da Covid-19, mas também no processo de desenvolvimento social e econômico do país. Para a análise dessa problemática, são considerados o processo de financeirização da economia e a captura do setor público pelos interesses da acumulação rentista-patrimonial, que limitam os aportes de recursos fundamentais ao setor saúde e às demais rubricas do gasto público social. Em vez de uma narrativa alarmista, tanto oficial quanto midiática, acerca do aumento da razão dívida pública/PIB, o discurso governamental federal deveria estar afinado com as recomendações da Organização Mundial de Saúde e com as medidas preconizadas pelos especialistas em epidemiologia e saúde pública. De fato, ao surpreender as autoridades públicas por sua alta letalidade e efeitos contracionistas, a atual pandemia tem forçado o governo a reduzir o ritmo pretendido de enxugamento da máquina estatal e de redução do gasto social, cujo objetivo não declarado sempre foi o de manter a perenidade do gasto público financeiro, de acordo com os interesses da alta finança e das elites rentistas. No entanto, contrariamente às concepções ideológicas ultraliberais da atual gestão governamental, a superação dessa crise pandêmica e o retorno ao crescimento econômico sustentável exigem o reconhecimento e o resgate necessário dos papéis fundamentais e intransferíveis do Estado, tanto para salvar vidas humanas quanto para salvar a própria economia.

Texto completo:

PDF/A

Referências


BOYER, Robert (2020). Entrevista sobre o livro “Les capitalismes à l’épreuve de la

pandémie, in Le Monde. Tradução de Aluisio Schumacher.

BOYER, Robert (2021). Robert Boyer on the Covid-19 pandemic. Interview

Sase.org.

BOYER, Robert (2012). The four fallacies of contemporary austerity policies: the

lost Keynesian legacy. Cambridge Journal of Economics 2012, 36, 283–312.

BRUNO, Miguel & CAFFE, Ricardo. Estado e financeirização no Brasil:

interdependências macroeconômicas e limites estruturais ao desenvolvimento.

Economia e Sociedade, Campinas, v. 26, Número Especial, p. 1025-1062, dez. 2017.

BURLAMAQUI, L. e TORRES FILHO, H. The corona crisis: mapping and

managing the (Western?) financial turmoil. A Minskyan approach. Working Paper

No. 968 June 2020. Levy Economics Institute.

CHAUÍ, Marilena. O que é democracia? Disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=XDJQ7CC6IAo, 2018.

FIOCRUZ. Boletim observatório covid-19. Boletim Extraordinário, Fiocruz, 23/03/21.

HEILBRONER, Robert. A natureza e a lógica do capitalismo. Ed. Ática, 1988.

LÉGÉ, Philippe. Une crise mixte aux conséquences décisives. Lés Économistes

Atterés. Disponível em: www.atterres.org, 2020.

MORIN, Edgar. Coronavirus et pandémie de covid-19. Entrevista Le Monde.

Disponível em: https://www.lemonde.fr/idees/article/2020/04/19/edgar-morin-la-crisedue-au-coronavirus-devrait-ouvrir-nos-esprits-depuis-longtemps-confines-sur-limmediat_6037066_3232.html.

MUSACCHIO, Andrés. ¿El coronavirus está enviando a terapia intensiva al

capitalismo? 30 de marzo de 202. edición impresa.

OLIVEIRA, Francisco. Por que política? Agenda Pós-Liberal. Fórum da Sociedade

Civil na Unctad, em São Paulo, 14, 15 e 16 de junho de 2004. Disponível em:

https://www.pagina12.com.ar/275905-el-coronavirus-esta-enviando-a-terapia-intensivaal-capitali

VIEIRA, Fabiola Sulpino et al. Vinculação orçamentária do gasto em saúde no

Brasil: resultados e argumentos a seu favor. Texto para discussão, IPEA, 2019.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Rev. NECAT, ISSN 2317-8523, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.